A questão da memória na apreciação do vinho e da comida é fundamental no gozo que podemos tirar do momento. Tal aconteceu há uns tempos quando recebemos a visita do Cláudio Alves, sommelier brasileiro e embaixador dos vinhos Alentejanos no Brasil. Estávamos na Amareleja, na adega de talhas do Zé Piteira onde a sua mulher Paula serve umas refeições a lembrar gostos de outrora, ainda não esquecidos na margem esquerda do Guadiana. Seleccionei para o petisco três vinhos brancos do Zé. O primeiro, um vinho jovem, frutado, com frescura surpreendente para a região mais quente do País, ganhador de medalhas em concurso. O segundo, um branco de talha, feitos desde sempre no Alentejo como no tempo dos romanos, agora na moda entre os wine freaks de Londres ou Nova Iorque. Por fim, resolvi arriscar um branco de 1999, com destino já marcado para temperos caso não estivesse à altura.

 

Provámos o primeiro, o segundo, tudo bem, sem sobressaltos, mas eis que chegados ao condenado, o Cláudio exclama com surpresa: «Parece um Chambertin da Borgonha!» Nunca tal comparação me teria ocorrido, tal a diferença de estatuto entre os dois vinhos. O certo é que entre as centenas, ou milhares, de vinhos já provados, o que lhe veio à memória foi simplesmente um branco de uma das denominações mais famosas do Mundo. Mas as emoções não ficaram por aí. Outra, não menos comovente foi, quando depois uma série de petiscos de eleição, chegam uns carapauzinhos fritos, ainda quentes e estaladiços. Aí o Cláudio diz: «São como os que fazia a minha Mãe!». Como nos vinhos, os peixes eram de origens completamente diferentes, os nossos de mar, os dele, de um rio do outro lado do oceano. Mas na sua memória era como se os dois estivessem lado a lado.

 

E como pode um Chambertin da Amareleja ser o par ideal para os peixinhos fritos e demais petiscos? Basta perceber que esta combinação não é mais do que a apreciada desde sempre nas tabernas de Lisboa, onde com a patanisca ou o pastelinho de bacalhau se bebia o branco velho de Almeirim. Ou na Andaluzia, onde o par ideal para um pata negra é o Jerez seco. Em comum, todos possuem uma oxidação benigna, fácil de perceber pela cor e pelo cheiro e, se provados com atenção, um sabor salgado na medida justa, não se deixando desvanecer com os sabores dominantes de um queijo seco, de um presunto bem curado ou de uns jaquinzinhos fritos. Como sempre nestas coisas, uns hão-de gostar outros nem tanto, mas será certamente uma experiência memorável para quem se quiser libertar da hegemonia dos brancos jovens e frutados.

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