No quadro de um protocolo de cooperação estabelecido em 2004 entre a Câmara Municipal de Almada e a Província do Cuanza do Sul foi organizado em 2005 Abril (Outubro) um Raid-Todo-o-Terreno em que participaram cerca de 45 “raidistas”, angolanos e portugueses.

O Raid destinava-se a divulgar as belezas e as potencialidades daquela Província. Durante cerca de 10 dias, e em condições por vezes muito duras, foi percorrido todo o território com enorme impacto junto das populações (não podemos esquecer que a Paz em Angola após 37 anos de guerras civis, tinha apenas 3 anos).

O êxito foi tão grande que, no ano seguinte, se organizou novo Raid, este destinado a dar conhecer, alem do Cuanza Sul, as províncias do Huambo, Cuanza Norte, Malange e Bié.

Nos anos seguintes, foram organizados mais raids, procurando cobrir todas as províncias. No total efectuaram-se 9 expedições.

Os participantes (cerca de 50, em média) puderam constatar o enorme progresso que nesse período alcançou Angola, designadamente no que se refere às condições de vida da população, à educação e no apoio aos viajantes.

Do terceiro ao nono raid foram realizadas publicações dando a conhecer a História, os aspectos físicos e a realidade social e económica das regiões atravessadas, contendo mais de 100 artigos, muitos deles verdadeiramente originais.

 

3º.- Raid – 2008  (Maio/Junho) – Namibe e Huila (Rumo ao Cunene)

4º – Cabinda – Uíge – Zaire – (Do Cunene a Cabinda)

5º – Lundas (Rumo às terras que brilham)

6º – Cuando Cubango (Rumo às Terras do Fim do Mundo)

7º – Caminho de Ferro de Benguela –  do Lobito até ao Luau, Cazombo (com o CFB na Picada)

8º – Distrito do Cunene (Para lá do deserto)

9º – Cuando Cubango (2ª vez) (Rumo ao Cuando Cubango – Terras de Progresso)

 

Para se ter uma ideia da fantástica camaradagem vivida nos raids e de como surgiu a descoberta da “Nova Angola”, incluirei dois relatos que podem ilustrar a aventura.

O primeiro, escrito por Maria José Nogueira Pinto, é o testemunho do que acima dissemos e uma homenagem a uma Grande Senhora, raidista entusiasta, que viveu como poucos essa aventura. (3º Raid). Maria José Nogueira Pinto juntou-se a um grupo de portugueses e angolanos para percorrer terras africanas, regressando a um país onde viveu e aonde não regressara desde 1974. Foram 12 dias a conhecer gentes que falam português e a ver as belezas naturais de uma Angola que se esforça por esquecer a guerra:

RUMO AO CUNENE

 

por MARIA JOSÉ NOGUEIRA PINTO

(publicado no Diário de Notícias, de 14 de Julho 2008)

 

Junto-me ao 3.º Raid Todo Terreno Kwanza Sul, parto para Angola e durante 12 dias percorro oito províncias, integrada numa coluna de 17 viaturas, com 45 companheiros portugueses, angolanos e luso-angolanos faço quase 4 mil km por montes e vales, matas e florestas, desertos e praias, cidades e vilas, rios e lagoas. Tudo graças a um protocolo celebrado entre a Câmara de Almada e o Governo do Kwanza Sul. Ao longo destes dias vou-me imbuindo da cultura todo-o-terreno feita de disciplina, perícia, entre-ajuda e laços cúmplices que nos vão unindo.

Pela manhã de 31 de Maio partimos rumo ao Sumbe não sem antes entrarmos em directo no programa “Bom dia, Bom dia”. Ditos e risos radiofónicos marcam a saída da capital a caminho da barra do Kwanza, onde almoçamos beneficiando de uma vista lindíssima, para depois entrar na Quiçama e seguir por Cabo Ledo em direção a Porto Amboim.

A paisagem é marcada pelos embondeiros, pelos cactos candelabros, pelas palmeiras e pelo capim que ao secar ganha uma tonalidade arroxeada. Vejo quimbos de casas de adobe disfarçadas na paisagem e gado que atravessa, displiscente, a estrada. Cruzamos o rio Longa, entramos na Província do Kwanza Sul e, pouco antes de chegar a Porto Amboim, avistamos as salinas, a baía e o porto. Depois passamos o rio Keve, que faz fronteira entre Porto Amboim e Sumbe, e atravessamos uma planície muito fértil que contrasta com os morros de terra vermelha. As mangueiras substituem agora os embondeiros. No Sumbe (ex Novo Redondo) aguarda-nos recepção com danças e cantos, muito povo e o Governador. Acolhem-nos com amizade e um bom jantar e vejo que, pela noite fora, centenas de jovens se passeiam pela marginal numa animada “movida”!

Na manhã seguinte partimos rumo a Benguela pela baía do Quicongo, onde dantes os navios portugueses faziam a “aguada”, e pelos morros da Canjala, atravessando uma impressionante planície que é como que a transição para a paisagem já mais desértica que antecede a chegada ao Lobito. Daí seguimos para Benguela, via Catumbela. São duas cidades que impressionam pelo seu traçado largo, pelo seu plano urbanístico, os espaços verdes, décadas e décadas de boa arquitectura portuguesa e a qualidade dos edifícios oficiais. E há o Hotel Terminus – ex-líbris da Restinga do Lobito – ou o revivalismo nostálgico do melhor dos anos cinquenta na marginal de Benguela, tudo restaurado após a guerra.

Damos um salto à baía Farta, à praia da Macaca, à Calotinha e tomamos o primeiro banho no Atlântico Sul na belíssima baía Azul antes de enfrentarmos a que seria a mais dura prova todo-terreno do Raid.

Estamos a 3 de Junho e o dia começa quando iniciamos o percurso até ao Namibe pelo Dombe Grande, atravessando o rio Coporolo, Cimo, Lucira, o rio Carunjamba e, por fim, Bentiaba-Namibe, cruzando ainda os rios Giraul e Bero. É no Dombe Grande que vejo, sob árvores centenárias onde as galinhas debicam, a escola improvisada ao ar livre, a jovem professora em frente à lousa apoiada no tronco e as crianças, todas com a sua cadeira de plástico colorido, sentadas em filas para aprenderem, segurando o lápis e o caderno como bens preciosos. O sol infiltra-se pela folhagem das grandes copas e sopra uma promessa de futuro.

Seguimos por caminhos pedregosos. A paisagem é extraodinária e durante horas não se vê vivalma. Nada excepto as grandes cordilheiras, os cactos como postes de alguma electrificação esquecida, capim seco e ninhos de pássaros que não se pressentem nem se ouvem. Só graças à força das viaturas e à perícia dos pilotos podemos afoitar-nos por tais caminhos. É um percurso abrupto, com muita pedra, de solidão e silêncio, até que, já ao cair da tarde, vemos os primeiros animais, um grande número de babuínos pretos que aparecem no topo dos montes e iniciam a sua descida em busca de água, A passarada também acordou de uma longa sesta e aquele mundo, que parecia fantasma, anima-se misteriosamente. O contraste com a pequena vila piscatória de Lucira é um choque. Chegamos à praia quando na linha do horizonte as águas parecem engulir um sol imenso e vermelho. O dia chegava ao fim num poente de cacimbo recortando o casario, os barcos de pesca, as redes, as nossas próprias sombras.

No início da subida para a serra da Neve, assim chamada pela abundância de quartzo que parece geada, avistamos um pequeno quimbo com meia dúzia de cubatas, um sítio perdido no meio do nada, habitado por mucubais que se dedicam à pastorícia. Assim que a bola de futebol salta de uma das viaturas, o convívio está feito, aparecem jogadores voluntários e joga-se em português.

Entramos na cidade do Namibe (antiga Moçâmedes) exaustos, imundos, famintos e felizes. No dia seguinte descansamos nesta cidade de grandes portos e baías, com o seu comércio tradicional, pequenas leitarias com biscoitos caseiros iguais aos da minha avó, artesãos como o estofador, já velhote, com quem troquei dois dedos de prosa, barbeiros, pequenas lojas de pronto-a-vestir, um mercado moderno, uma “bica” verdadeira na esplanada do hotel…

E um museu etnográfico no primeiro piso, fiel depositário dos “salvados” do Império, no segundo piso, com bustos da República, quadros de figuras grandes da nossa História. À noite, a convite do General Lanucha, comemos, ouvimos música e aplaudimos o grupo de teatro local.

É do Namibe que partimos, a 5 de Junho, para a nossa terceira etapa, divididos em duas colunas. Vamos passando pela baía dos Tigres com destino à foz do Cunene. Cruzamos o rio Curoca, que divide o deserto de pedras do deserto de dunas, avistamos a plantação de casuarinas e entramos na cidade mais ao Sul de Angola, Porto Alexandre, agora chamada de Tombwa. O dia está frio e cinzento. Todos andam encasacados e um vendedor ambulante apregoa casaquinhos de lã para bébé e ponchos. As crianças enchem as ruas a caminho da escola com as suas cadeirinhas multicolores e operários atarefam- -se na reabilitação de um lindo edifício antigo. Vejo a praça, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, o cine-teatro, o colégio do cónego Zagalo. Erguem-se novas construções e um cartaz anuncia a próxima inauguração de uma escola com doze salas. É a partir de aqui que iniciamos o percurso de 130 km que nos leva, através das Dunas Altas à baía dos Tigres e daí à foz do Cunene. É uma condução sob a influência da maré, um raid namibiano entalado entre as dunas e o mar e a nossa berma é, agora, onda e espuma. Mergulho num mundo comovedoramente intocado em que nós, intrusos, somos ignorados por tudo o que nos rodeia: neblina, areia, água, corvos marinhos, bancos de mexilhões gigantes, restos de baleias mortas, destroços de barcos naufragados. Há harmonia naquele habitat de focas, golfinhos, tartarugas gigantes, pelicanos e milhares de patos negros, como um único e poderoso acto criador, uma prova da existência de Deus. Alcançamos a mítica foz do Cunene e, por trilhos de novo pedregosos, chegamos ao sítio onde pernoitaremos; dois barracões junto à fronteira com a Namíbia. Tiram-se os sacos-camas, cozinham-se mexilhões, acendem-se fogueiras para afastar chacais e jacarés e… abre-se champagne!

Com muita neblina seguimos, na manhã do dia 6, da foz do Cunene para Espinheira e daí até Omahua a tempo de almoçar no Parque do Iona. Vemos camaleões do deserto e antílopes. O calor aperta num percurso rodeado de montanhas. Movimentos tectónicos e antiquíssimos processos metamórficos transformaram-nas numa sucessão rendi- lhada de obras de Gaudi. Mas, mais adiante, as montanhas, agora formadas por gigantescos pedregulhos sobrepostos, parecem ter a assinatura de Botero. E já no Parque do Iona o que vemos assemelha-se a uma obra de gigantes, um jogo infantil que deslocou as enormes pedras para posições e equilíbrios inexplicáveis. As instalações deste lindíssimo parque aproveitam as grandes rochas ocas e aí se instalam a sala de refeições, de convívio e mesmo uma suite! Sinto–me um personagem dos Flintstone na Idade da Pedra. Ao almoço dão-nos a melhor garoupa que jamais comi e à tardinha saímos, em carrinhas de caixa aberta, para avistar os animais já acordados do torpôr do meio dia. À noite acendem-se as fogueiras para afastar os leopardos.

Estamos já a 7 de Junho e o nosso destino é a cidade de Lubango (antiga Sá da Bandeira). Vamos de volta até Tombwa por uma estrada em terra de pedra solta e visitamos a welvitchia gigante. Passamos pela lagoa do Carvalhão, um oásis e uma pequena terra chamada Milunda, antes S. João do Sul. É aí perto que vejo, alinhados e perfeitamente conservados, os quatro túmulos, dois maiores, dois mais pequenos, de portugueses, talvez uma família, que ali viveu, trabalhou e morreu. Também é por ali que avisto algumas viaturas enferrujadas que não resistiram ao duro itinerário da fuga em 1975…

Almoçamos no Namibe e seguimos para Humpata subindo os “lacetes” da Serra da Leda. Observo aquela fantástica obra de engenharia e informam–me que foi tudo feito pela Junta Autónoma das Estradas de Angola. E esta? Estamos, agora, no maciço da Chela na Província da Huíla, a quase 2000 metros e a vista é impressionante. A paisagem mudou radicalmente, vêem-se as últimas bananeiras e gado a pastar. Chegamos por fim ao Lubango, cidade de avenidas desafogadas, acácias, mais a boa arquitectura, bairros de vivendas, o antigo liceu em obras e o Grande Hotel da Huíla completamente restaurado. Espanto–me com coisas tão diferentes como a fenda da Tundavala, a pastelaria tradicional portuguesa, os adolescentes estudando sob as árvores dos jardins públicos como se fosse um ritual, a Basílica cheia na missa de domingo, o Cristo-Rei atingido por uma rajada de metralhadora que todos atribuem aos cubanos e com um restaurante onde jantei, especializado em petiscos portugueses: bom presunto e bom queijo da serra feito ali mesmo!

No dia 9, partimos rumo ao Huambo, 456 km de estrada muito variada, a primeira aproximação de campos minados, troços de estrada partida e picada empoeirada. Vejo a planície, os campos de sisal, os carros de bois e pequenos mercados com bons legumes à beira do caminho. Motos e bicicletas, crianças e jovens a caminho das escolas de bata branca. E, depois de comermos empadas ainda quentinhas, trazidas do Lubango, à beira de uma pequena barragem, começam os túneis verdes de bambus, os eucaliptos, a floresta de Brachistéria, quimbos com jangos, casas de adobe rosado, morros de salalé, banana que seca ao sol. Paramos na Caconda e almoçamos num restaurante de um espanhol que ali chegou como voluntário de uma ONG e decidiu ficar. A caminho da cidade do Huambo passamos por Longonjo, onde vi um hospital municipal, uma escola, uma igreja, um campo de futebol, um laboratório de análises clínicas e uma livraria com material didáctico. Chegamos ao Huambo (antiga Nova Lisboa) ao fim do dia e, enquanto abastecemos, percebo uma forte iluminação pública ao fundo de uma rua: é a praça principal com todos os seus edifícios nobres restaurados e iluminados como, por cá, não temos o Rossio.

No dia 10, atravessamos o planalto Central. A rádio angolana transmite um programa sobre a língua portuguesa. Interrogo-me se, em Portugal, alguma rádio terá feito um programa assim neste Dia de Camões… Vamos do Alto-Hama à ponte do rio Keve e daí a Lupupa. Entramos de novo no Kwanza Sul e almoçamos numa fazenda onde um português cultiva inúmeras espécies de rosas. Tudo está primorosamente ajardinado e em grandes jangos servem–nos um bom churrasco. É nessa tarde que atravessamos o Colonato da Cela, esse projecto tão dis- cutido, com defensores e detractores. Fico a olhar para as casas alinhadas, a igreja e a escola, as alfaias agrícolas, as terras ricas, os silos e lembro-me dos primeiros colonos transplantados de Trás-os-Montes… Seguimos para a foz do rio Kussoi onde vivemos a hilariante aventura de procurar hipopótamos com toda a aldeia à nossa roda, o digníssimo régulo a receber-nos, uma paisagem de sonho e, alguns de nós, incluindo eu própria, afundados nos pântanos traiçoeiros, encharcados até à cintura. É neste estado miserável que chego a Waku Kungo, pequena cidade construída de raíz como uma extensão do Colonato que visitamos no dia seguinte e onde é visível, uma vez mais, o esforço de reconstrução que sucedeu à longa guerra civil. Em direcção ao Calulo visitamos o empreendimento “Aldeia Nova”, um modelo entre colonato e kibutz para fixar ex-combatentes. Seguimos pelo planalto da Kibala e trepando ao que resta da velha fortaleza temos uma vista magnífica da cidade. Pernoitamos no Calulo e, no dia seguinte, num percurso de picada através da serra da Cabuta e passada a ponte Filomeno da Câmara, chegamos ao Alto Dondo. Onde revejo, emocionada e 34 anos depois, a cantina e a gasolineira onde me encontrei com o Jaime e que foi o ponto de partida para a nossa diáspora…

É aqui, a poucos quilómetros de Luanda, que encerro este caleidoscópio de memórias e descobertas. Depois do forte sopro dos ventos da História após mais de cinco séculos de presença portuguesa cujos trilhos acabo de percorrer, e de três décadas de guerra civil, tornou-se palpável o imperativo do futuro. E a grandeza e vitalidade de Angola. |

 

O segundo relato, de minha autoria, procura narrar as peripécias do 4º Raid e irá brevemente para «o ar».

Com a esperança de em 2018 podermos voltar a beber um estupendo café, num lugar qualquer, inesperado mas que deixará igualmente muitas saudades.

 

O MELHOR CAFÉ DA MINHA VIDA

 

por Miguel Anacoreta Correia

Quando ao fim da tarde o avião se prepara para aterrar em Luanda, a enorme cidade parece atravessada por rios de um vermelho intenso. São os stops dos carros que, centímetro a centímetro, lutam pelo regresso a casa, em viagens que, frequentemente, demoram de duas a três horas. Ninguém escreve sobre a cidade sem se referir ao alucinante trânsito, que reduz drasticamente a produtividade, torna caótica a gestão de agendas pessoais e profissionais e atinge gravemente a vida social duma cidade, cujo espírito irreverente, altivo e “predisposto à farra” se construiu, em larga medida, em tertúlias e nas conversas de esplanada…

 

Mas, Luanda não é só o trânsito. E Angola não é só Luanda. A capital, essa, está ansiosa para ver como finalmente ficará a baía e a anunciada requalificação da sua jóia da coroa: A Ilha de Luanda. Mas fora de Luanda, o País mexe e de que maneira!…

 

Justamente para ver o País directamente, pela terceira vez participei no Raid Todo-o-Terreno do Kwanza-Sul, iniciativa do Governo da Província e da Câmara de Almada, no quadro de um acordo de cooperação exemplarmente executado. Este ano, o percurso de mais de 3000 quilómetros contemplou as terras de Bengo, do Zaire, Uige, Malange, Kwanza Norte e, naturalmente, Kwanza Sul e Luanda.

 

DE LUANDA AO RIO ZAIRE

 

Para evitar o trânsito partimos cedo, pelas 6 horas, até ao Sul da cidade – zona de Talatona – onde a NISSAN (parceira tradicional do Raid) entregou os Jeeps.

 

Tivemos a ocasião de viajar pela novíssima auto-estrada circular de Luanda. 54 quilómetros ainda com apenas metade da plataforma a funcionar, mas que nos poupou mais de 2 horas. Fomos “num tiro” de Benfica, ao Sul de Luanda, (onde jorrou o primeiro petróleo de Angola) até ao Norte do Cacuaco. Tivemos a ocasião de ver os enormes bairros em construção para realojamento e novas habitações sociais.

 

Ficámos, todavia, com a dúvida se prédios com mais de 10 pisos serão a “boa solução”… Ao longo da nova auto-estrada, muitos estaleiros, muitas empresas novas e as obras do novo estádio, onde se disputará a final do Campeonato Africano das Nações – que corresponde ao nosso Euro – pelo qual os angolanos já perderam definitivamente a cabeça e o novo treinador da Selecção de Angola, Manuel José, nosso compatriota, vai tentar não os desiludir… Será muito, mas muito difícil dizem-me. Oxalá consiga, pois faria mais pelas relações luso-angolanas que centenas de discursos…

 

Depois de visitado o monumento aos heróis de Quifangondo, que assinala a vitória de angolanos e cubanos, contra outros angolanos e zairenses nas vésperas da independência, foi um salto até a lagoa da Panguila, imensa mancha verde de plantas escondendo um enorme lençol de água, num dos braços do rio Bengo, rio que abastece de água Luanda e ácerca do qual os angolanos sempre gostam de repetir “quem bebe água do Bengo fica enfeitiçado pela cidade”. Eu acho que não deixam de ter razão… pelo menos no meu caso.

 

Nesta primeira etapa, prevista como a mais longa do Raid, passámos em seguida pelas  “cacussarias” (esplanadas cobertas com mesas alinhadas) que os luandeses aos fins de semana tomam de assalto para comerem os “cacussos” grelhados. O cacusso é um peixe de água doce, icone da boa tradição culinária da Região.

 

Os rios Dande, M’bidge e Loge – foram-se sucedendo. Tinha chovido até tarde (o clima em Angola, embora diferindo segundo as regiões, assenta em duas estações, a das “chuvas” – quente e húmida que vai até 15 de Maio, e a do “cacimbo”, seca e mais fria que vai até 15 de Setembro) e os rios apresentavam-se cheios, normalmente com rápidos de grande beleza.

 

E assim surgiu o N’Zeto (antigamente designado por Ambrizete), com a sua praia aberta e convidativa, com locais de venda de peixe. Algumas peixeiras imediatamente organizaram uma “farra” com os “raidistas”, dando largas à satisfação de ver a sua terra visitada. Dizem-me que foi um número com efeito espectacular quando foi transmitido na televisão.

 

Quando a meio da tarde se partiu para o Soyo (ex Santo António do Zaire) e se imaginava uma estrada mais fácil, as coisas foram-se tornando progressivamente mais difíceis. Contrariando a tradição, havia chovido copiosamente na véspera, primeiro dia do cacimbo, ou seja, a chuva “fintou” o cacimbo.

 

Primeiro, poça aqui, poça acolá… Depois, charcos maiores e, finalmente, lagoas de consideráveis dimensões. Entretanto, pusera-se noite, e à medida que nos aproximávamos do Soyo, a estrutura mais argilosa dos solos foi dando lugar a lamaçais onde algumas viaturas “dançavam a valsa”. Tracções às quatro com reforço e muita atenção e um eficiente sistema de entreajuda de informações disponibilizadas pela rádio lá foram permitindo que se chegasse finalmente ao Soyo. Eram quase 22h00. Pelo caminho, haviam ficado camiões absolutamente atolados, normalmente em sítios “críticos”, dificultando, ainda mais, a passagem dos “Nissans” que se portaram “à altura”.

 

UM PULO ATÉ CABINDA

 

Os raids que se pretendem duros, em percursos difíceis, sem preocupações competitivas, são frequentemente confundidos com rallies e, tratando-se de África, com “safaris”, em que alguns se metem por engano, ficando a sonhar com confortáveis tendas climatizadas e uma ambiência “Out of África”…

 

Por não serem competitivos, dão lugar a um clima muito particular de companheirismo. Permitem, estabelecer novas amizades. Por mim, conheci pessoas muito interessantes. Nesta edição, acompanhada por bastantes jornalistas, foi fácil discutir-se história, política, automóveis, alternativas energéticas ou como distinguir cobras inofensivas das venenosas e como combater o veneno…

 

Depois de recuperados por um bom sono num hotel caoticamente barulhento, arrancámos para Cabinda, atravessando o magestoso Zaire num voo de 15 minutos. A alternativa (12 horas de barcaça, mas que nos permitiria levar connosco as viaturas, falhara). E assim se chegou a Cabinda.

 

Cabinda mudou muito nestes 35 anos que não a visitava. Muitos poços de petróleo no mar, muito movimento comercial, muita gente e carros (já há congestão ao fim da tarde). As mulheres continuam lindas e, sobretudo, elegantes. Os bairros deixados pelos portugueses são de longe os mais bonitos.

Além de tempo livre para descansar da “sova” do percurso da véspera, os participantes deslocaram-se a Lândana (preciosas a igreja, a dos padres do Espírito Santo, e a foz do Chiloango – um rio que permite a navegabilidade) e à fronteira do Massabi.

 

Ali a confusão “é mato”. Gente que vai para o Congo/Brazaville, mistura-se com gente que vem para Cabinda, os funcionários aduaneiros, são, frequentemente, parentes uns dos outros (as fronteiras são, de facto, muito artificiais) e a atmosfera genuinamente africana. A mistura de cheiros, cores, vozes é contagiante. Pode-se comprar tudo “made in China”, isqueiros que são também lanternas (dão um jeitão), fitas de agrimensor, CD’s piratas, lindos “tecidos do Congo” (os melhores, os célebres Wax, fabricados na Holanda), peixe seco, fatos, cadeiras de praia… Tudo. Um mini Roque Santeiro, numa atmosfera vibrante de energia e entusiasmo. Foram visitadas também a fronteira com do Iema (com o Congo/Kinshasa) julgo que era a única fronteira “realmente fechada” no “nosso tempo”. e o Visitou-se também o local onde foi assinado o tratado de Simulambuco, agora interpretado de mil maneiras, por juristas afamados – que não se pagam mal – como se tivesse tratado de um acto de alta jurisprudência erudita, e não de acto de vontades convergentes, da parte Cabinda pela acção do Barão Puna (baptizado em Lisboa e afilhado de Suas Magestades os Reis de Portrugal), precedido de dois outros tratados similares (o de Chinfuma e o de Chicamba), e assinado à sombra de uma árvore (a Naanda) à boa maneira africana, árvore de fortes raízes visíveis, bem agarrada à terra, e símbolo de uma vida que se deseja longa ao que se assina. Gostei da limpeza do local e da preservação dos símbolos portugueses (que noutros locais e circunstâncias foram primitivamente destruídos, como se a História não tivesse força suficiente para vencer vontades de homens que não gostam da verdade…). Lá está a placa comemorativa da visita do Presidente Craveiro Lopes.

 

Na noite de 19, fiz a apresentação do livro que coordenei para o IV Raid (do Kunene a Cabinda) que tem despertado grande entusiasmo entre os que já o viram, modéstia à parte… A Chuva voltou a “fintar o cacimbo”. Que saudades tinha de uma chuvada assim! 10 minutos gloriosos que encharcaram tudo por 24 horas…

 

Terminei aqui a minha descrição do Raid até Cabinda, ( o regresso fez-se de novo em avião. Viagem sem história) e vejo que a descrição vai longa. Optei, por isso, por continuar neste “ritmo”até ao Uige e depois, compactar os restantes oito dias.

 

NO CORAÇÃO DA PROVÍNCIA DO ZAIRE

 

Regressámos, depois de visitar o Soyo, pela mesma estrada em direcção ao sul (o que nos deu a oportunidade de ver o que a noite nos escondera na 1ª etapa) e em Mucula virámos em direcção a M’banza Congo, notabilizada por ter sido a sede do primeiro bispado negro de Africa e pelas ruínas de velhos edifícios que portugueses e congoleses construíram. Hoje M’Banza Congo é a sede da província do Zaire.

 

Em M’Banza Congo, que sonha em ser património mundial da Humanidade, visitou-se o Museu da Cidade (pequeno mas muito interessante) beneficiando de um conservador culto e interessado, o cemitério dos Reis do Congo (muito perto dali o Papa João Paulo II celebrou missa), junto do qual está enterrado um dos “pais” do Estado Angolano, Helder Roberto, e ainda o local onde uma rainha foi executada por “ sabotar” as ordens do rei, seu filho.

 

De M’ Banza Congo, nova descida para dormir no N’Zeto. Na manhã seguinte, saída cedo para um percurso que se anunciava difícil. Estrada degradada, sem manutenção há anos e muito pouco frequentada: N’Zeto – Bessa Monteiro- Toto – Uige.

 

Antes da chegada a Bessa Monteiro (hoje Cádixi), já haviam sido recebidos os “avisos”: lama, muita lama, rilheiras, pedras soltas, ravinas nas bermas. Nalguns troços a estrada era mesmo perigosa. Lá se passou Bessa Monteiro (uma rápida visita permitiu ver os antigos aquartelamentos da nossa tropa, com numerosas placas comemorativas da passagem das unidades militares (que será feito daquelas pessoas?), e um magnifico “sentido urbanístico” na disposição da vila, que se sabe ter sido sítio de “muita porrada” entre 1961 e 1974.

 

O FIM DA PICADA!

 

Depois de Bessa Monteiro, foi o fim da “picada”! Lagoas com muita argila, reforçada por solo vegetal!… E, assim, os carros foram começando a enterrar-se. Apesar da abnegação de muitos dos raidistas e da população local que foi buscar catanas e preparar num tempo record percursos alternativos, “deitando” o capim, foram-se acumulando atrasos. (Como não estávamos num rally todos esperam por todos…)

 

Quando a noite caiu, com aquela pressa que os lindíssimos crepúsculos tropicais sempre têm, a coluna tinha carros imobilizados á frente (e se os Nissan não fossem tão bons nem sequer teríamos esperanças em sair dali), a meio outros enterranços e no final, o carro oficina deslizara por um barranco e não havia maneira de o safar. Um Jeep que o tentava ajudar derretera a embraiagem …

 

Não havia que hesitar (de resto não havia alternativa). Apesar da comida ser pouca, a agua também não ser demasiada, a ordem foi de “parar a coluna”! “Passamos a noite aqui mesmo!”

 

Do meu lado direito havia uma lagoa e não dava para sair do Jeep por aquele lado. Pois bem, decidi que estava em Veneza! Havia que ser optimista… O céu, a centenas de quilómetros de qualquer cidade, estava deslumbrante. Sempre tive o fascínio por identificar as constelações. O Cruzeiro do Sul é a minha favorita, o Orion brilhava nítido. Foi-se conversando e a pouco e pouco o sono foi chegando… Lá nós fomos ajeitando nos bancos e esticando as pernas quanto se podia…Lá para trás, a um ou dois quilómetros, os meus colegas tiveram a sorte de estarem perto de uma aldeia de gente extremamente simpática (que se queixava de não havendo estradas não conseguirem escoar os seus produtos, particularmente magníficos citrinos, e da falta de rede para os telemóveis…) que lhes ofereceram ginguba (amendoim), batata doce assada e mandioca. Mais atrás, o carro oficina e o outro tentavam safar-se com a ajuda de dois IFA (grandes camiões soviéticos, modelo da II Grande Guerra e de grande força) mas sem êxito…

 

Foi preciso o reforço duma retro escavadora, enviada de Uige, para os safar, dois dias depois.

 

NÃO HÁ FOME QUE NÃO DÊ EM FARTURA!

 

Pois foi nesse quadro, completamente inesperado que se passou aquela noite. De inicio, alguma contrariedade. Sem telemóvel, não podíamos falar para as famílias…Mas, pouco a pouco, foi-se instalando uma nova sensação de bem-estar, para que muito contribuiu a percepção de que estávamos em absoluta segurança. Já o escrevi, estivéssemos nós parados na Marginal Lisboa – Cascais não teria eu estado tão seguro…

 

Com os primeiros alvores lá foram saindo, um a um, os raidistas dos seus carros. Iam-se fazendo planos para “safar” os carros e de repente comecei a pensar se não estaria a sonhar: Cheirava a café! Era verdade: Havia café!

 

Uma das raidistas tivera a paciência (bendita paciência…) de levar de Lisboa uma máquina de café, e que fazia, ainda por cima, bom café: Não tenho dúvidas em afirmá-lo “foi o melhor café da minha vida”!…

Para alguns privilegiados apareceu um bolo de mel, legítimo, da Madeira!

 

Lá arrancámos e ás dez e meia estávamos em Quimaria (nunca mais me esquecerei do nome) a seis quilómetros dali. Alguém apareceu a vender pão quente… A população estava deleitada com a nossa presença. Conversa com o Administrador e o Chefe da Polícia para autorizarem (e alojarem) os dois participantes que ficavam à espera de socorro e lá partimos. Confirmei a magnifica impressão da Polícia de Angola, que já obtivera em raid anterior na Baia dos Tigres.

 

Passava das nove da noite quando chegámos ao Toto (lendária escala na História da Aviação de Angola). Jantámos frango assado na “fazenda do Sr. Carneiro” e cerca das 2 e meia da madrugada, entravamos no Uige, onde nos esperava uma grande ceia! Não há fome que não dê em fartura…

 

A partir daí, o raid teve diante de si a beleza incomparável das terras do Uige que atravessámos. Passámos por Negage e Camabatela (todo aquele Planalto espera para ser uma imensa ganadaria). Vimos as primeiras queimadas… Fomos a Calandula (ex-Duque de Bragança). Uma festa aos Domingos: Pic-nics e música. Um arraial quase minhoto em fato de banho.

 

O raid prosseguiu. Como se deve calcular ficam inúmeras peripécias por contar. Mas o espaço, é quem dita as regras do jogo dum artigo… Lembremos apenas o Calulo (magnífico), Muxima, Sumbe e o interior do Kwanza-Sul!

 

ALGUNS APONTAMENTOS FINAIS

 

Queria apenas deixar meia dúzia de notas finais:

A segurança é a grande lição da Angola de hoje. Fiz em 3 anos 15 000Km a maioria das quais em picadas, sem nunca ter vivido qualquer situação que me fizesse pensar em menor segurança. Não estraguem esse extraordinário capital que é a segurança!

 

O segundo apontamento é a simpatia e cordialidade das populações. O episódio da batata-doce e mandioca servidas aos raidistas “enterrados”, que referi, é por demais elucidativo.

 

O fim dos conflitos originou uma verdadeira explosão populacional. Montes de miúdos! Muita pobreza mas muito menos subnutrição e miséria do que há 3 anos.

 

A sabedoria do velho camponês, a quem perguntei se ainda faltava muito para uma determinada localidade, ao que me respondeu: “Para quem tem carro é sempre perto…”.

 

O humor angolano traduzido na piada de um examinador que perguntou no exame de condução em que mão, direita ou esquerda, se devia segurar a lata de cerveja…

 

Finalmente, se tiver o privilégio de viajar pelos matos desse grande país e se quiser fumar quando estiver ao pé de camponeses ou de gente pobre, não se esqueça de oferecer cigarros. Nem calcula os sorrisos e as portas que um cigarro pode abrir…

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