unitum voluntatem fortior sit

 

É, é um facto da vida: a vontade unida tem mais força. E é com essa certeza que a Alameda Digital ressurge depois de um interregno de vários anos. Com um novo visual, mais moderno e flexível, mais adaptado à portabilidade dos leitores mas que alguns poderão considerar minimalista. (E não só, pois todos temos consciência de que nestas coisas do inovar cada um teria sido capaz de fazer melhor e mais impactante. O problema é que passar da oxalateirice da crítica à concretização vai habitualmente um passo de gigante). A própria reaparição da Alameda Digital é a prova cabal do lema deste editorial, uma vez que o facto só foi possível graças à boa vontade de muitos que quiseram confiar no projecto, apoiando-o generosamente. Só assim a Alameda pôde voltar a dar a cara totalmente liberta de qualquer dependência de grupos económicos, financeiros ou de interesses políticos, vulnerabilidade que infelizmente afecta a maioria dos órgãos de comunicação actuais.

Aliás, é mesmo o facto de muitos desses meios se terem transformado em agentes objectivos de um orwelliano Ministério da Verdade que nos motivou a recriar este Espaço de Liberdade. Os jornalistas e os escritores, a par de professores e artistas, são hoje os principais agentes intermediários na transmissão do saber, colectivo e individual. Mas não é por acaso que Hannah Arendt entende, não sem amargura, serem também eles, geralmente, as pessoas mais comprometidas e submissas com os poderes instalados, na «domesticação» das massas consumidoras, e contribuintes.

Foi por não encontrarmos os nossos pontos de vista (discordantes) considerados, nem sequer mencionados, no pacote de informação que agressivamente a expressão político-cultural hegemónica que o poder tem vindo a inculcar, que resolvemos sair do nosso conforto e fazer a Alameda Digital. A rupturista insistência revolucionária do pensamento único totalitário, que sistematicamente nos é imposto nos mais pequenos detalhes, provoca uma saturação mental que detona logicamente uma indignação natural. E é por essas e por outras, e não por qualquer diabólica conspiração, que surgem os chamados «populismos». Quando as estruturas intermediárias que regulam as democracias (como são os parlamentos) deixam de responder às preocupações do país real, refugiando-se na artificialidade do «país formal» e na legitimação forçada de agendas encobertas, os sinais de revolta do povo acabam por se manifestar.

Temos uma visão discordante do caminho que tem sido imposto ao país. Consideramos que só assumindo responsavelmente as questões críticas que nos afectam poderemos sair do atoleiro em que os sucessivos governos nos têm enfiado. Não é possível que os executivos continuem a comprar votos com o dinheiro dos contribuintes para se eternizarem no poder. Não é possível que o sector chave de qualquer possível regeneração – a Educação – seja cada vez mais gerido para servir os «funcionários» e não os alunos; e que estes, em vez de serem ensinados a pensar, sejam «processados», forçando-os a mastigar dogmaticamente o que devem pensar. E é exactamente no combate cultural que queremos arvorar a nossa flâmula. Não temos nem apetência nem jeito para as questiúnculas políticas de circunstância que nos são servidas pelo sistema, muitas vezes com o fito de nos distrair do que é essencial.

Se anuíssemos em ser subservientes perante os ditames da moda, quantas vezes em histérica alienação, se consentíssemos em alinhar na «mentalidade de carneirada», seria até fácil afirmarmo-nos ufanamente «de direita». Mas isso seria renegar os nossos propósitos de procurar resistir por todos os meios a que sejam os outros a definir-nos, colocando-nos uma etiqueta a dizer quem somos. Porque desde que o reducionista e maniqueísta conceito dicotómico de esquerda-direita se definiu (no seio da Assembleia Nacional francesa, sobre a questão da execução do Rei, durante a Revolução) foi sempre a Esquerda a definir o que é a Direita, e os seus diversos cambiantes. E com o relativismo grassante que nos encharca, a mediana do espectro político desliza ao sabor dos humores, das agendas escondidas e, muitas vezes, da ignorância de quem o define.

É claro que nos caracterizamos positivamente por comungar de uma visão do mundo baseada numa apreciação céptica do homem, visto na complexidade da sua dimensão racional e irracional, mas socialmente natural e promissora. E em oposição a uma concepção optimista do indivíduo, artificial e prometeica, por um lado, mas profundamente negativista do ponto de vista da relevância da sociedade, por outro. Dessa abordagem, decorre a nossa preocupação pelo «outro», concreto, não abstracto, visto com preocupações solidárias reais e não de cosmética. E temos uma particular predileção por, antes de nos «dissolvermos» por toda a humanidade, transformando-nos nos tais «cidadãos do mundo», procurarmos conhecer melhor os próximos, os que partilham connosco a mesma herança cultural, amalgamados nesse contrato social multi-geracional a que se chama Nação Portuguesa.

Houve quem dissesse que, com a queda do muro de Berlim, a História tinha acabado mas verdade é que nos encontramos hoje numa encruzilhada ainda mais crítica. Iludidos pela queda do império soviético, houve quem entendesse que as revoluções violentas pareciam estar erradicadas do mundo ocidental. Mas não se aperceberam de um outro tipo de revolução, mais gramsciana, que, pela sua elaborada camuflagem, transmite a percepção de ser soft e até de adesão voluntária. Infecta primeiro as elites que, depois, bem alinhadas pela «opinião publicada», se encarregam de difundir a mensagem para baixo, para as «camadas mais incultas», como dizem. Num juizo de ilusório discernimento, fazem-no com uma «afável» abordagem social, «invertida» face ao referencial natural, com a persistente imposição da agenda das causas fracturantes, como, por exemplo, as ligadas à ideologia do género e à recusa de protecção às formas mais indefesas da vida humana. E o que é mais espantoso (ou talvez não tanto) é que os principais agitadores e promotores desse acosso ideológico nem se apercebem de que não passam de autênticas marionetes nas mãos dos «donos disto tudo» que continuam a ser os detentores do grande capital especulador. Como é óbvio, para eles, quanto mais disrupção e caos mais lucro. Há muito que Wall Street e os Antifa comem da mesma gamela, na mesa das Open Society.

A verdade é que, por demissão ou simples omissão, e seguramente por cansaço, grande parte da população que olha para o mundo de forma distinta da que nos tem vindo a ser imposta se tem mantido à parte, convencida, como a avestruz, de que se trata de uma condição circunstancial, passageira. À míngua de referências culturais, abdicam do discernimento e da vontade própria e não hesitam em se entregar nas mãos dos «banhas-da-cobra» e cartomantes políticos, esforçando-se por se esquivar a que os possam considerar dissidentes do «incontornável bom caminho». Parece-nos, pois, importante, e oportuno, dar testemunho de abordagens culturais alternativas ao mainstream hegemónico que nos condiciona. Quer pelo amor à Verdade e à Liberdade, afinal as duas faces da mesma moeda, quer especialmente pelas gerações mais novas, alicerces futuros da comunidade de destino a que chamamos Portugal. É fundamental criar faróis (candeias, se tiver de ser) de cultura que iluminem o caminho dos que querem, por intuição ou vontade, ir além da junk culture que nos é servida diariamente. E, sempre que possível, com humor que é ainda um dos melhores tónicos para um estado de espírito são.

A arreigada crença nos «amanhãs que cantam» para o caos do mundo (que eles próprios ajudaram a criar!), já não aparenta estar assim tão alinhada com os «ventos da mudança» que até há pouco sopravam sempre do mesmo lado. E em muitas partes já se começa a fazer sentir a genuína força do poder popular, farto do jugo que lhe tem sido imposto. Não é por acaso que Alameda Digital ressurge, hoje dia 1 de Dezembro…

 

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