Paulo Pires nasceu em Timor, filho de Manuel Caldeira de Sousa, liurai de Turiscai (etnicamente um mambai) e de Ludovina Caldeira Barbosa e nasceu em 15 de Agosto de 1946. Fez o ensino primário no Colégio D. Nuno Álvares Pereira, em Soibada, conhecida como a Coimbra de Timor. Seguiu para o seminário menor de Nossa Senhora de Fátima em Dare-Dili onde terminou o ensino liceal em 1966. Cursou o bacharelato em Filosofia no seminário maior de Évora, entre 1967 e 1970, e Teologia no seminário maior de Leiria entre 1970 e 1974. Regressou a Timor e, depois da invasão do território pela Indonésia, ficou internado no campo de concentração de Atambua, Indonésia, de 1975 a 1976, tendo sido evacuado para Portugal em 28 de Julho de 1976. A partir dessa altura, envolveu-se empenhadamente na luta pela libertação de Timor, já como dirigente da UDT. Entretanto, aproveitou para acabar a licenciatura em Filosofia na Pontificia Università Urbaniana, em Roma. Regressado a Lisboa concorreu para professor de Filosofia no ensino secundário, profissão que exerceu até à sua reforma. Depois da independência, esteve em Timor entre 2002 e 2006, dando o seu contributo como professor, na qualidade de cooperante português. Agora dedica-se a compilar os dados que recolheu durante toda a vida sobre Timor. Em 2013 publicou na Colibri o importante livro Timor: Labirinto da descolonização que ajuda a desvendar o véu do que de facto se passou com aquele território ultramarino de Portugal.

 

Da nossa conversa informal, publicamos o seguinte registo:

 

AD – Conhecemo-nos em 1971, se a memória não me falha, quando ainda estavas no Seminário. Não foste ordenado sacerdote, casaste com uma transmontana, constituístes família e fazes uma vivência católica. Que protagonismo teve a Igreja Católica na formação do território de Timor e, posteriormente, no processo de resistência à ocupação indonésia? Ainda lhe está reservado algum papel relevante na consolidação do Estado soberano de Timor-Leste?

 

PP – Conhecemo-nos de facto em 1971, no Curso dos Estudos Ultramarinos. Eu já andava no seminário maior de Leiria, frequentando o curso de Teologia. Não fui ordenado sacerdote, por razões alheias à minha vontade, razões que se prendem com o conflito político que eclodiu em Timor, na sequência da chamada “descolonização exemplar” das colónias portuguesas. Casei já em 1982 com uma portuguesa transmontana de nome Maria Jacinta Borges e era professora como eu. Desse casamento nasceram duas filhas: Andreia Raquel Borges Pires e Carla Daniela Borges Pires. Nunca abandonei a minha militância católica, participando activamente nas comunidades; por exemplo, fui vice-presidente do Conselho Pastoral da Paróquia da Póvoa de Santa Iria, Director do Coro salmista e organista.
A Igreja Católica teve um papel muito importante na própria constituição de Timor como território sui generis desde há muitos séculos. Mais próximo de nós, no século XX, contribuiu para a evangelização da população timorense e, especialmente, para a formação académica dos futuros sacerdotes e dos jovens em geral. O ensino em Timor, na época anterior à descolonização era totalmente administrado e gerido pela Igreja. E manteve a mesma influência junto do povo durante a ocupação indonésia. Foi mesmo o grande baluarte da resistência timorense. Neste momento, os novos dirigentes do país procuram marginalizar a Igreja na consolidação do estado de Timor-Leste.

 

AD – Nos anos do Processo Revolucionário em Curso (PREC) imposto pela Lisboa do MFA, como reagiu a maioria da população timorense?

 

PP – A princípio a população estava totalmente alheada. Só mais tarde decidiu aderir ao movimento que procurava impedir que Portugal abandonasse Timor. E esteve em peso na grande manifestação aquando da visita do ministro da Coordenação Interterritorial, Almeida Santos, em Setembro de 1974. O ministro declarou então que «se Timor quiser que Portugal fique, Portugal fica!». Viu-se…

 

AD – No teu caso, porquê a UDT (União Democrática de Timor) e não a APODETI (Associação Popular Democrática Timorense) ou o KOTA (Klibur Oan Timor Aswain [Confederação dos Povos de Timor]), por exemplo, onde se juntaram representantes de algumas famílias da aristocracia timorense, como é o teu caso? Porque não a FRETILIN (Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente)?

 

PP – Quando cheguei a Timor em Agosto 1974 não aderi a nenhum partido, porque estava a preparar-me para ser ordenado sacerdote. Mas simpatizei com a UDT – União Democrática Timorense. Nunca poderia ter aderido à APODETI por razões culturais e religiosas. E o povo de Timor não simpatizava muito com a Indonésia. A APODETI agregava «integracionistas» pró-Indonésia mas não atraía famílias aristocráticas. Algumas reuniram-se no KOTA, o partido dos liurais, aristocratas locais. Quanto à FRETILIN, apesar de ter sido contactado no início por Nicolau Lobato, eu não podia aderir a um partido marxista-leninista.

 

AD – A UDT, e particularmente tu, foi surpreendida pela reacção indonésia e pela posterior ocupação e anexação, ou já suspeitavas de que isso iria acontecer?

 

PP – Eu já suspeitava que mais cedo ou mais tarde a Indonésia ia invadir Timor para impedir a implantação de um poder comunista. E Portugal negociava secretamente com a Indonésia para a entrega de Timor: reunião em Lisboa, em Outubro de 1974; reunião em Londres, em Março de 1975, e reunião em Hong-Kong, em Junho de 1975, antes e depois da cimeira de Macau.

 

AD – Depois da anexação, uma parte da estrutura dirigente da UDT tornou-se colaboracionista e outra recuou para a diáspora, mormente para Portugal (e Macau), como foi o teu caso, e Austrália. Entendes que também entre os dirigentes da FRETILIN houve colaboracionismo com o invasor?

 

PP – Alguns dirigentes saíram de Atambua (Indonésia) para Portugal, Austrália e Macau. Ficaram em Timor Francisco Lopes da Cruz, Mário Carrascalão e, por algum tempo, Domingos de Oliveira. É claro que houve colaboracionistas da FRETILIN com o invasor e ocupante indonésio, porque negócios e marxismo até se misturam bem. Muitos deles ainda estão vivos, sendo alguns deles altos dirigentes políticos da FRETILIN e do CNRT.

 

AD –Durante a violenta ocupação indonésia, terá havido coisas positivas?

 

PP – Sinceramente, não sei. Das informações que me chegavam umas eram contraditórias e outras muito vagas. Pena foi que não tivesses feito a pergunta ao Mário Carrascaslão, por exemplo.

 

AD – A Indonésia é um imenso Estado pluri-territorial com uma esmagadora supremacia muçulmana. Mas durante o período da anexação de Timor Timur dava a impressão que era o diminuto lobby católico, com alguma influência nas Forças Armadas (lembro-me por exemplo do general Benny Murdani) que mais irredutível se mostrava face à hipótese de um Timor-Leste independente. Estou errado?
PP – A Indonésia não pretendia ser hostil à presença da Igreja Católica em Timor. Estratégia política inteligente, aliás. E a pequeníssima minoria católica a que te referes se, por um lado estava mais alerta em relação a ao perigo de um enclave marxista-leninista, por outro não desdenhava ter podido engrossar as suas hostes, com o aumento da massa crítica aportada pelos timorenses.

 

AD – No passado, vivenciado por muita gente que ainda está viva, Portugal, consubstanciado em símbolos como a bandeira, tinha uma natureza que roçava o sagrado, o lúlic. Hoje essa própria dimensão animista está totalmente ausente no ethos das gerações mais jovens. Como é o Timor de hoje? Como são as relações, intergeracionais, nos aspectos educacionais, culturais, nos anseios de futuro, etc.?

 

PP – Há um fosso entre a geração antiga e a geração mais nova. E o Timor profundo de que falas atolou-se, de certa forma, nesse mesmo fosso que as separa. A geração mais velha não quer largar o poder, e o dinheiro, e a mais nova, com outros horizontes está farta de esperar…

 

AD – Há muito que se sabia que Timor tinha petróleo (conheço relatórios detalhados dos anos 40 do século passado que o demonstram). Crês que pela entrada do país na engrenagem da «globalização energética» mais uma vez a soberania vai fugir ao povo timorense? E que já está administrado por um simulacro de democracia baseado numa oligarquia de «gente da terra» mas ao serviço do grande capital internacional?

 

PP –Para já Timor nunca foi um país soberano. E é tal como dizes: está a ser administrado por um simulacro de democracia ancorada numa oligarquia de “gente da terra” ao serviço do grande capital internacional baseado, sobretudo, na Austrália.

 

AD – Que futuro vislumbras para Timor-Leste? Entendes que ainda está reservado a Portugal algum papel de «mátria» ou de «irmão mais velho»? Ou o «grande crocodilo» já rumou a outras paragens?

 

PP – O futuro de Timor é uma incógnita: “quo vadis, Timor?” A estratégia de Portugal em Timor tem sido muito deficiente e errática. Já nem sei o que é que Portugal

pretende em Timor e para Timor! Talvez tenhas razão quando afirmas que o “grande crocodilo já rumou a outras paragens”.

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