Catalunya, comtat gran,/ Qui t’ha vist tan rica i plena/ Ara el rei Nostre Senyor/ declarada ens te la guerra [Catalunha, grande condado, / Quem te viu tão rica e farta/ Agora o Rei Nosso Senhor/ declarou-te guerra]. Estas são as primeiras estrofes do velho hino histórico catalão – Els Segadors [Os Ceifeiros] – que recorda a sublevação popular de Junho de 1640. Desde há muito, quando a irritação me aperta e necessito agasalhar o temperamento com memórias de indignada revolta, o Els Segadors está sempre à mão, na sua versão do século XVII, interpretada pela rouca voz de Rafael Subirachs; não a sua recriação jacobina, a oficial, amanhada em 1899. Quando fico saturado com as constantes arbitrariedades, agressões e intolerância das autoridades instaladas, da prepotente agenda disruptiva dos comediantes da Frente de esquerdas ao leme da macabra nave carinhosamente designada por «geringonça», zumba! lá vêm o Els Segadors, o La Libertat e outras canções que o filtro do politicamente correcto me impede de mencionar.

Confesso que, embora nunca tenha sofrido da hispanofobia aguda que afecta grande parte dos nacionalistas portugueses, como razoável reacção ao desdém e arrogância de Espanha para connosco, sempre tive um particular apreço pela base identitária catalã. Talvez isso se explique pela causa comum que partilhámos durante o período final da União Dinástica filipina quando Gaspar de Guzmán, o valido de Filipe III (de Portugal), procurou acabar com a soberania separada de Portugal e proclamar por diktat a integração peninsular. Com efeito, no decorrer da Guerra denominada dos Trinta Anos, a emergência da França como potência europeia, concorrente da hegemonia continental dos Habsburgo, levou a que grande parte da Catalunha, suspeita de simpatias francesas, fosse ocupada por tropas mercenárias germânicas, valonas e piemontesas que espalharam o terror e a devastação. Tal comportamento, aliado ao agravamento dos impostos para suportar a guerra, levou os catalães a sublevarem-se, tendo a rebelião ficado conhecida como a Revolta dos Ceifeiros, pelo protagonismo que estes tiveram na detonação dos levantamentos, com érem en temps de sega [porque eram tempos de ceifa].

A Revolta dos Ceifeiros não foi uma revolução independentista como nos querem fazer crer os revisionistas históricos. Foi uma reacção social máscula contra a política de Olivares, traduzida no comportamento intolerável das tropas estacionadas na região. Na essência, os insurrectos, aguilhoados pelas circunstâncias, procuravam defender as suas liberdades, as suas tradições e a sua fé contra o centralismo castelhano. Guzmán, o conde-duque de Olivares, alarmado com a insurreição, resolveu acorrer militarmente à Catalunha, aproveitando o pretexto para, na passada, responder às inquietantes notícias de conspiração que lhe chegavam de Portugal. Procurando matar dois coelhos com uma só cajadada, convocou o duque de Bragança e muitos nobres portugueses que se haviam salientado ao serviço da coroa filipina e que se deviam fazer acompanhar por um exército capaz de meter a Catalunha na ordem. Mas D. João fez-lhe um manguito e com o apoio de cerca de três dúzias de fidalgos, e muito povo enquadrado pelo baixo clero, decidiu revoltar-se em Lisboa, a 1 de Dezembro de 1640, abrindo uma segunda frente no teatro de guerra peninsular. Talvez a circunstância de a revolta catalã nos ter ajudado a garantir o essencial da nossa soberania tenha pesado no meu subconsciente, levando ao meu apreço pela causa identitária catalã.

Contudo, há muito que me habituei a ajuizar sobre os acontecimentos, procurando equilibrar dialecticamente emotio e ratio, e a buscar a sua intentio. Bebendo avidamente no pensamento cristalino de Ratzinger, entendo que Liberdade e Verdade são duas faces da mesma moeda. E se a causa identitária catalã, reavivada, e «reinventada» nalguns detalhes pela Renaixença romântica no século XIX, me merece respeito e favor, não é menos verdade que a sua projecção para a dimensão política, protagonizada desde então por uma burguesia individualista e presunçosa, me induz algumas desconfianças. No seu registo histórico, a Catalunha, se bem que autónoma, nunca foi verdadeiramente uma nação soberana, tendo sempre lavrado a sua gloriosa gesta como parte integrante, e proeminente, do reino de Aragão e, posteriormente, do de Espanha, depois da criação desta entidade política na terceira década do século XVI. Mas para se ser Nação, comunidade política de destino histórico projectado no universal, não basta querer. Às aspirantes a Nação, mesmo com vincados sentimentos de diferenciação nacionalitária, baseados na cultura ou na língua, não é suficiente pedir meças aos «contratos socias» circunstanciais; é necessário, com um processo continuado e irreversível, escrever a própria história e consolidar a soberania com sucesso. Talvez fosse isso que os actuais detentores do poder autonómico quisessem fazer mas, tal como em Outubro de 1934, o espalhanço não poderia ter sido maior.
Em 1934, ainda mal refeitos da surpresa pela vitória da direita nas legislativas de Novembro do ano anterior, despeitados pela perda de poder, os socialistas do PSOE, nomeadamente as suas alas maçónicas e «maximalistas», e os seus aliados esquerdistas preparavam a retoma do poder por via revolucionária. E tinham conseguido arregimentar os separatistas catalães da Esquerra Republicana de Catalunya (ERC) embora não os bascos do PNV. A revolução eclodiu um pouco por toda a Espanha mas, passada a poeira inicial, apenas as Astúrias e Barcelona se mantinham em armas. Mas na Catalunha, perante a abstenção dos desconfiados anarquistas, a coisa aguentou apenas dois dias incompletos, com o registo que os mais interessados poderão ler no artigo conexo A Opera buffa catalã.

Em Outubro de 2017, volvidos 83 anos, tentaram repetir o exercício, embora num cenário mais próprio do século XXI e com as variáveis da equação alteradas. Desta vez, não iriam poder contar com o apoio do PSOE, substituído de certa forma pelos liberais do Partit Demòcrata Català. Este, uma transfiguração da Convergència i Unió, é, em grande parte, herdeiro da velha Lliga Regionalista Català de Francesc Cambó, um dos principais apoiantes da sublevação que, após uma tremenda guerra civil, colocou Francisco Franco no poder em Espanha, em 1939. Já antes, em 1934, a Lliga se colocara ao lado de Madrid, como protesto pelo facto de a administração autonómica, nas mãos da Esquerra, se confundir, tal como recentemente, com o partido sem pejo algum em fomentar a repressão dos discordantes e a promiscuidade dos poderes. O líder da Esquerra de então, Lluís Companys, President da Generalitat, proclamou o Estado Catalão dentro da República Federal espanhola. Em 6 de Outubro de 1934, na Praça Sant Jaume, pelas 20 horas, muitos ouviram com emoção o discurso «libertador» de Companys que, no fim, afirmou: «Ja està fet. Ja veurem com acabarà [Já está feito. Já veremos como acabará]».

As palavras proferidas por Companys, em Outubro de 1934, poderiam ter sido proferidas por Carles Puigdemont (conhecido no seu círculo como El Motxo e por muitos dos seus adversários como El Cocomocho) em Outubro de 2017. E quase somos levados a concluir que o que vimos agora não passou de um remake político dos acontecimentos secessionistas de 1934. Procurando tirar partido do que percebiam como uma vulnerável situação política do Governo de Madrid, com uma exígua maioria apoiada por pequenos e volúveis partidos, há já muito que as forças detentoras do poder autonómico na Catalunha vinham desenvolvendo um procès revolucionário com vista à independência absoluta da região. Mais ou menos às claras, mais ou menos na sombra, a Generalitat apoderou-se totalitariamente do aparelho do Estado permitindo aos partidos da esquerda separatista o controlo ideológico da população: politicamente republicano, culturalmente anti-espanholista e socialmente rupturista. Nas escolas catalãs, não se ensinavam os alunos a pensar mas o que pensar. Não é por acaso que, até Outubro de 2017, a tendência das intenções de voto separatista tenha andado em perfeita correlação com o aumento da percentagem de falantes de catalão, indo de 18% a 48%. Para melhor inculcar esse incremento cultural em termos políticos, elaboraram uma narrativa histórica falaciosa, vitimizante e alheia à realidade dos factos. Especialmente diabolizado foi o período franquista, com a mitificação da hostilidade à Catalunha, quando, em abono da verdade, não só muitos dos principais colaboradores de Franco eram catalães como a região, apoiada por Madrid, tinha sido a que beneficiara de maior desenvolvimento económico durante o período. E quanto à repressão da língua, se descontarmos o tacanho escarmento inicial dos militares de Franco, ébrios de vitória e confundindo língua com separatismo, o Catalão não só sobreviveu à guerra civil como se manteve pujante na literatura publicada e no ensino privado durante a era franquista. O próprio Caudillo esteve presente em Barcelona (recebido, aliás, por multidões que empunhavam cartazes onde se podiam ler Viva Espanya! Visca Cataluña!) na inauguração de uma instituição (Milà i Fontanals) dedicada ao estudo da língua catalã. Esta apenas perdeu o estatuto de língua oficial, deixando de ser usada na administração pública, como, aliás, acontecia na maioria dos países europeus em que as línguas regionais não tinham estatuto oficial. Muitas delas ficaram quase extintas, como aconteceu com o próprio Catalão no Rossilhão, ferozmente reprimido, a par do Bretão, do Occitano e do Provençal, desde que a Revolução Francesa impusera o uniformismo linguístico.

Mitos à parte, o pendão identitário tapava os olhos aos conservadores liberais do Partit Demòcrata Català, garantindo a sua inércia, enquanto a Esquerra e os extremistas da CUP, herdeiros dos comunistas heterodoxos do BOC (Bloc Obrer i Camperol [Bloco Operário e Camponês]) dos anos trinta do século passado, iam desenvolvendo as suas agendas fracturantes. E, quando entenderam que as condições objectivas estavam maduras, provocaram Madrid lançando um simulacro de consulta popular, a que chamaram Referéndum. Como se esperava, para as consciências democráticas o processo foi tão grotesco que teria envergonhado qualquer «chapelada» da I República portuguesa. Mas, no fundo, para os golpistas isso pouco significava; o que importava era ilustrar mediaticamente o processo de vitimização. Efectivamente, o que verdadeiramente estava em causa era obrigar Madrid a proceder de acordo com a fórmula que o prócere republicano Brito Camacho expusera em 1906, referindo-se ao governo de João Franco: «Quanto mais liberdade nos derem mais haveremos de obrigá-los às transigências que rebaixam ou às violências que comprometem».
A verdade é que a troika formada por Carles Puigdemont, Oriol Junqueras e Anna Gabriel se comportava como espelho do registo imagético dos «três estarolas da vida airada», o «Cocó», o «Ranhetas» e a «Facadas». Prenhes de confiança irresponsável, conduziram um processo golpista cujo objectivo imediato, no guião do plano, era a conquista revolucionária da «rua». No imediato, almejavam à insurreição geral da Catalunha sob as flâmulas esteladas, blava e vermella [estreladas, azul (e) vermelha], a evocar Cuba e os sovietes. Enquadradas por uma profusão de punhos cerrados, bem erguidos a não deixar lugar a dúvidas. Como em 1934 mas agora convencidos do inquestionável sucesso. Contavam para isso com um aparelho mediático (e de agitprop) afanosamente arquitectado, forças de segurança apaniguadas e uma oposição popular atemorizada e tida por submissa. Enganaram-se rotundamente. A sociedade civil, saturada do acosso, de mãos-dadas com a reacção política catalisada pela inesperada sintonização de caudilhos de ocasião do largo espectro democrático, reagiu estrondosamente, deslaçando a grande paella revolucionária. Na vanguarda da reacção, a partir do próprio Parlament, salientou-se a líder regional do Ciudadanos, o maior partido da oposição lá representado, a jovem Inés Arrimadas, europeísta até ao tutano (e que tutano, perdoe-se-me a brejeirice).

Tal como o português, o patriotismo espanhol parecia inerte, remetido apenas para o foro desportivo. Mas afinal, o espírito da raza ainda estava renitente na Catalunha como ficou demonstrado com as gigantescas manifestações que desfilaram por Barcelona. Quando menos se esperava, o braço-dado da senyera, a insígnia histórica da Catalunha, com a bandeira real espanhola permitiu à Coroa recuperar o prestígio da monarquia, até aqui seriamente abalado por escândalos e por um aparente desfasamento institucional. E, na espantosa mobilização que retirou a supremacia da «rua» a uma estupefacta esquerda golpista, fiada no seu estribilho «Els carrers són nostres», chegou-se ao cúmulo de ver as comunidades ciganas das periferias urbanas da Catalunha a aplaudir entusiasticamente la Benemérita [Guardia Civil], sua arqui-inimiga histórica, enquanto vituperavam e apedrejavam os Mossos d’Esquadra. Muitos clamavam mesmo «nosaltres som Nacionals! [nós somos Nacionais!]», termo há muito banido do léxico do politicamente correcto. A manipulação levada a cabo pelos órgãos de comunicação ao serviço da Generalitat («papada» acefalamente por muita da nossa), difundindo «imagens» de agressões policiais posteriormente desmascaradas nas redes sociais livres como forjadas, foi tão grosseira e descarada, que acabou por produzir o efeito contrário, levando a que muitos catalães, até aí indecisos ou indiferentes, se passassem para o campo dos unionistas.
Em Madrid, Mariano Rajoy, odiado pelas esquerdas e desconsiderado por muita direita, dava os toques finais na sua «estratégia galega». Velha «mula» da política espanhola, enquanto parecia titubeante, ia, dissimuladamente, movendo os cordelinhos no tabuleiro diplomático, cobrando favores e solidariedades devidas. E o sucesso foi total. Ninguém se dispunha a reconhecer a novel República da Catalunha; nem sequer a China, mesmo tentada com a concessão do porto de Barcelona. Na frente interna, sabendo que o calcanhar de Aquiles da burguesia catalã, molt pessetera, é a colocação do coração bem juntinho ao bolso do casaco, com o apoio do experiente Luis de Guindos, Rajoy intercedeu junto das grandes empresas catalãs, levando-as a anunciar a sua deslocalização para fora da região. Após a equívoca declaração de independência, todos os dias, centenas de firmas declaravam a retirada das suas sedes do espaço catalão. E sentindo-se ingredientes de um caldeiro galego, a cozer em lume brando, os dirigentes golpistas começaram a perder o pé e a abrir fissuras no edifício independentista, sustentado por pilares desirmanados, com orientações políticas e sociais contraditórias. Tinham cavado uma fractura profunda no povo catalão, e um incalculável rombo na economia da região, mas recusavam-se agora pagar a factura da paella combinada.

Para os que ainda tenham dúvidas sobre o que se passou (e passa) na Catalunha basta terem em atenção a posição dos comunistas do Bloco e do PCP. Só o facciosismo rupturista, social e anti- Europa, e a solidariedade internacionalista com as forças que efectivamente conduziam o procès podem ter levado aquelas formações políticas a apoiá-lo quando ele era justificado, pasme-se, com uma lógica nacionalista. Sabemos, como eles também o sabem, que o argumento era meramente instrumental; mas como é possível que se tivessem manifestado em apoio de teses racistas e xenófobas de gente que despreza os imigrantes e as suas descendências a que chamam depreciativamente xarnegos [originalmente, mestiços de catalão com estrangeiros]? Como é possível ignorar as declarações «antropológicas» do vice-President da Generalitat, Junqueras, o anafado «Ranhetas», que afirmou, em entrevista publicada, que «os catalães nada tinham a ver com os espanhóis, estando geneticamente mais próximos dos franceses, dos italianos e, até um certo ponto, dos suíços (sic)», rematando, com desdém, que «os espanhóis estariam mais próximos dos portugueses», porventura, no seu entendimento, a franja mais baixa do ranking europeus dos povos? Como é possível que não tenham percebido que, na Catalunha, a maioria das «classes trabalhadoras» que dizem defender não seja favorável ao independentismo?

Para já, parece ter triunfado a «legalidade constitucional» em toda a linha. Mas a judicialização do que, em último ratio, é eminentemente político, serve apenas de escudo temporário e caprichoso que arrasta com ele o perigo do alheamento da essência da questão. Por isso, desiludam-se os optimistas que acham que a dupla Mariano–Soraya resolveu a questão catalã. Como é dos livros, os processos revolucionários não querem saber das constituições para nada; o seu objectivo primeiro até é rasgá-las, à força ou pela exaustação do adversário face ao acosso, substituindo-as pelo ditatorial exercício do poder. E sempre de forma parcial e discricionária. Por isso, os catalães irredentistas não vão claudicar e manterão aceso o facho separatista, qualquer que seja o resultado das eleições de 21 de Dezembro. Se ganharem, não terão outro remédio senão negociar com Madrid vantagens financeiras palpáveis, ao nível do País Basco e de Navarra. A troco, eventualmente, de alterações constitucionais que obriguem a que qualquer decisão sobre o futuro da região tenha que garantir o apoio de pelo menos dois terços do voto popular ou dos seus intermediários parlamentares. Se perderem, terão sempre aberto o caminho do terrorismo, surfando a onda dos movimentos disruptores globalistas, como o Antifa, que, ao serviço do grande capital especulador, semeador do caos, dispõem de avultados meios e cumplicidades. Por isso, mais cedo ou mais tarde, novos episódios se sucederão à actual busca do Pokémon no labirinto catalão. E, mais uma vez, as novas gerações irão sentir quanto custa a Liberdade. Lá, como cá…

 

Partilhar
Comentar